sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Tenho saudades tuas, vó


Lembro-me quando me fazias chá de folha de laranjeira quando estava doente.

Não sei se é fruto da minha imaginação de tantas vezes ouvir contar, mas acho que me lembro de quando viravas o alquer e me punhas lá dentro. Depois empurravas pela cozinha até entrar uma colherada de sopa de novo na minha boca.

Lembro-me de estar contigo a aprender a dar “estalinhos” nos melões e nas melancias para fazermos a escolha certa.

Lembro-me de esconderes comigo rebuçados para dar-mos à nossa guitinha (a ovelha).

Lembro-me de dançar contigo músicas que cantarolávamos, pela varanda fora.

Gostava de procurar nos bolsos da tua bata um doce. Por lá existia sempre um amendoim, um rebuçado ou uma língua de gato.

Lembro-me como eras forte. Eras a mulher que trazia para casa o feixe de caruma maior e o saco com mais pinhas.

Lembro-me de como eras vaidosa. Sempre a olhar para o espelho e a espalhar perfume.

Lembro-me quando dizias a mim e à Marta para ter-mos cuidado com os “Pêssegos” na discoteca. Nem muitos maduros nem muito verdes.

Lembro-me do aconchego de chegar a casa de fim de semana e ter sempre à espera a sopa de couves com feijão ou a sopa de massa com feijão. Então quando fazias cozinha fervida…

Lembro-me de voltar de fim de semana e tu teres sempre uma notita escondida para me dares.

Lembro-me de todo o amor e cuidado que tinhas por mim.

Lembro-me de adorares ficar na conversa com a vizinha, o padeiro, o homem da fruta, com toda a gente.

Lembro-me dos cuidados que tinhas com o nosso Bobi e do desgosto que tiveste quando ele partiu.

Lembro-me da estima que tinhas pelo Gutchi e do quanto ficavas encavacada quando o vias.

 Lembro-me de estarmos as duas na horta a regar, com os pés metidos na água da vala.

Lembro-me de me aninhar no teu colo.

Lembro-me de aqueceres com as tuas mãos os meus pés gelados.

Lembro-me o quanto eras teimosa e o quanto sou parecida contigo.

Lembro-me de adormeceres ao lume e de quase caíres para cima dele.

Lembro-me de ficares nervosa, de ficares com dores no peito e de dizeres inúmeras vezes que ias morrer.

Lembro-me que dizias que gostavas de me ver casada e com netos.

Lembro-me de ficares doente.
Lembro-me de dizeres que não querias morrer.
Lembro-me de bateres com as mãos na cama do hospital, a pedires para te levarem para casa.
Lembro-me da nossa última noite juntas.
Lembro-me da tua mão quente.
Lembro-me das palavras que te disse. Sei que as ouviste. Vi uma lágrima no teu olho verde.
Lembro-me que esperaste por mim.
Lembro-me da tua mão fria…

… é tão bom quando sinto o teu frio ao meu lado.

Tenho tantas saudades tuas, vó!



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